domingo, 19 de julho de 2009

Sonhos de cavalaria


O semestre que se despediu na semana passada, e que este espaço de comunicação pouco pautou, guarda muito em histórias de lutas e - quase como num conto de literatura apaziguadora - nisso conquistou um interessante final. Não exatamente feliz final; pois há limites até para literaturas apaziguadoras. Tivemos um final retumbante. Ecoa até agora o barulho com sons de cansaço e de desafio. Há isso, sons de desafio? - pois existem sim, e vêm em forma de aplausos, de vozes embargadas, de suspiros de missão cumprida. A Semana de Arte, Cultura e Tecnologia do Peja-Manguinhos apresentou uma realidade retumbante, diferente de um período difícil que até então fora 2009.

Nosso blog não deixara de ser alimentado por falta de assunto. O que se deu fora a precarização das relações de trabalho que atingiu em cheio a equipe. Problemas que atacaram os recursos do projeto financiado com recursos da ENSP: novo sistema de cadastro de convênios (do Governo Federal), atrasos quase inimagináveis na burocracia dentro da Fiocruz (idas e vindas do processo protocolar pelo qual há de passar todo projeto, mas com adendos de caricatura da "eficiência" do funcionalismo público), impasses na assinatura do convênio Peja-Manguinhos mediante o trabalho já realizado meses antes da assinatura final - que tanto demorara a vir. Enfim, ficamos sem recursos, o que significou desde abril até junho sem salários. Pouco problema? Quase tivemos uma equipe desfeita. Entre os tantas experiências pedagógicas ganhando robustez no cotidiano, tivemos que nos situarmos diante de uma situação absurda que se estendia semana a semana – e que só perigou explodir ao final do semestre: um cenário de contrastes: desestímulo material (porque a ideologia não prescinde ter de pagar o ônibus para ir ao trabalho) e empolgação com os resultados das disciplinas em estudo (os estudantes produzindo à luz dos parâmetros curriculares atividades sem, perdoem o trocadilho, parâmetro – isso diante dos preconceitos historicamente legados a quem more em favela, claro). Daí professores tomaram posicionamentos distintos sobre como reagir ao impasse, e então, o problema que era interinstitucional, entre Governo Federal, Redeccap e Fiocruz, veio a minar as relações internas. Uma briga de foices entre os famintos. Uma injusta querela, guerra de nervos, entre os profissionais que mantiveram os trabalhos em atividade até, enfim, a semana passada, na culminância mais do que bem sucedida dos Laboratórios do Livre-Saber. Desta vez, escrito com letras maiúsculas para ser provocação da provocação.

A imagem que ilustra esse pequeno texto é do Pablo Picasso. Os personagens retratados são épicos porque arquetipizam uma pá de comportamentos de hoje e de amanhã. Rocinante, Dom Quixote, Sancho Pança e seu burrico (de quem esqueci o nome), trazem à luz as mazelas que sofremos na perseguição dos sonhos. São errantes, são errados, são divertidos aos olhos do leitor pelas angústias que guardam. Provavelmente a tal da verossimilhança em seus cacoetes de alucinados cause efeito. Por outro lado a idéia do sonho impossível seja o que cause apetite. Um cardápio de associações possíveis.

Colocar esses problemas publicamente é um modo de considerar que nosso apetite esteve acima da fome. Desconsiderar a fome é um erro, porém.


Hoje, então com despensa abastecida, devemos entender melhor o nosso apetite: o lugar onde queremos chegar.
Matar a fome é resolver uma falta. Isso feito, precisamos de nutrição planejada para o “ir além”. O Peja-Manguinhos deste novo semestre se coloca como um programa de intervenção na comunidade porque é escola. Disputaremos o conceito de escola, desta vez com mais interlocutores, tais como a nova equipe da Escola Politécnica da Fiocruz, o Escritório Técnico Multidisciplinar da Fiocruz Mata-Atlântica, e com a própria Ensp (que segue parceira de idéias e ações).

Estamos todos (estudantes e professores-estudantes) com ânsia por degustações mais extensas. Não degustações novas. Estamos construindo um caminho que não carece especialmente de novidades, mas que exige um aprofundamento, uma sofisticação do que já existe. Nisso falamos de pesquisa e publicização dos dados. Nisso falamos de ampliar o diálogo sobre educação territorializada com outras instituições e com o movimento social local. Nisso falamos de provocar mais ainda o protagonismo entre nossos estudantes. Sempre na metodologia de falar muito nisso, sem esquecermos de estudar aquilo. O mundo é sabor para muitos paladares – tem em história quanto mais temos em necessidade de beber/produzir história. Enfim, Cidadania Ativa é o conceito que disputaremos até perder seu binômio. E só, somente só, cidadania ser.

Este "só", é tudo o que nos falta como compreensão do poder que nos é negado, que nos é ceifado, que - olha só - por vezes temos por empréstimo diante do status quo. “Nós” não somos o status quo – o que é definição ampla, mas basta.

Como Quixote de La Mancha, no Peja-Manguinhos buscaremos entender da anatomia dos moinhos o suficiente para, enfim, derrubar os gigantes.

Que venha 2009 / 2!




Felipe Eugênio


segunda-feira, 13 de julho de 2009

A inauguração de uma antiga novidade


A antiga semana cultural do PEJA-Manguinhos, evento que há três anos finaliza semestres letivos, na edição de 2009 ganha um formato mais ousado e, por conta disso, adquiriu novo nome: laboratórios do livre-saber (semana de arte, cultura e tecnologia do Peja-Manguinhos).

O texto abaixo busca justificar essa inovação em nomenclatura e no formato das práticas de apresentação. Após um longo período desde texto inaugural, após - e ao passo - de um semestre agitado com complicações internas, a equipe docente do PEJA-Manguinhos apresenta os resultados dos estudos cumpridos e das metas, discutidas desde o primeiro dia, como uma pauta que não se esmorece.

Por que “laboratórios do livre-saber”?

O laborar, labor, labore são palavras que carregam similaridades etimológicas à cultura, ao kultur, ao cultivo; ao trabalho de lidar com a terra. Ao trabalho como processo de transformação do mundo pelo homem.

No Peja-Manguinhos, ao largo de cada semestre letivo, há mais de três anos buscamos integrar os saberes das disciplinas escolares com estratégias que, apresentando a materialização da teoria, tenha como finalidade maior a exposição para a comunidade dos aspectos de inovação ou intervenção que o estudo cultivara neste ou naquele período semestral.

Antes chamávamos esse evento de Semana Cultural. Mas ainda lidávamos com apresentações de trabalhos no formato de seminário - ao mesmo tempo em que apresentávamos produtos de melhor acabamento para a recepção do público. E neste formato de atividades mais elaboradas, aí sim, nos valíamos das linguagens artísticas ou de apresentações com inovações intelectuais que fugiam da mera reprodução de saberes. Aperfeiçoando a cada semestre as semanas culturais – que continuarão sendo a avaliação final das turmas, mesmo com outro nome -, neste ano de 2009 optamos por acentuar mais a marca de nossa especificidade. Rompemos com os trabalhos com formatos de seminários e buscamos ficar inteiramente na exposição laboratorial dos estudos tidos em sala. A experimentação, hoje mais do que antes, torna-se para nós a base para uma escola em movimento.

Os saberes transados no espaço escolar, se não articulados com o conceito de liberdade (que a poeta Cecília Meireles bem versou sobre: "Liberdade, palavra que o sonho humano acalenta/Que não há quem explique,/Mas não há quem não entenda."), podem se perder num ocaso de objetivo.

O saber é patrimônio que tem uso para a subversão. O território de Manguinhos demanda de fugas e até de enfrentamentos sobre os “lugares comuns”. A subversão é medida para entendermos o que seja ação direta, o que seja cidadania, empoderamento, etc. A pecha criadora e de inovação desses saberes há de ser oriunda da permuta pedagógica, e isso sim, cotidianamente estimulado, experimentado, faz do PEJA-Manguinhos uma usina de conhecimentos. Uma escola que pretende discutir/disputar modelos de educação com o status quo.

Acreditamos em um ensino diferenciado, com propósitos e pretensões de formar cidadãos, que conheçam e exerçam seus direitos, formadores de opiniões, protagonistas político-sociais do território, partícipes isonômicos da cidade.

Diante de tal proposta, contamos agregar parceiros. Isso ficando claro que contamos com o debate, com o dissenso, com a parceria que não se limita ao aplauso, outrossim faz da tensão um caminho para crescimento. O Laboratório é abertos para todos que, visando a liberdade de idéias, contribua com argumentos para uma construção de civilidade.

Eis nossa Semana de arte, cultura e tecnologia – laboratórios do livre-saber. Assim mesmo, com letras minúsculas. Em primeiro porque não há uma propriedade que imponha, mas sim que, por ser aberta, está sempre disposta a ser disputada. E depois, porque cria a dúvida: é certo escrever assim, com minúsculas? Ou seja, provocação já na entrada.

Felipe Eugênio dos Santos Silva.

Coordenação pedagógica PEJA-Manguinhos

REDECCAP / FIOCRUZ

quarta-feira, 4 de março de 2009

Aula Inaugural 2009

Na última segunda-feira (2 de março) tivemos nossa aula inaugural. Após o cumprir do processo seletivo - antes do carnaval - e da feitura do quadro de horário das disciplinas, nos restava receber os novos e antigos estudantes do PEJA-Manguinhos de modo diferente e, ao mesmo tempo, confortável.
A proposta vingou do texto abaixo, onde duas turmas tiveram dinãmicas distintas: uma com todos os jovens participantes do Peja, outra com os formandos do ensino médio - além dos recém formados do fundamental que agora inauguram o médio na turma nova. Na turma dos novatos, encabecei a leitura coletiva , que resultou numa prática mais trabalhada com intervenções escritas no verso do papel - atacando assim a questão lá proposta. Com a turma de veteranos, as professoras Cassia Miranda (filosofia) e Karine Bastos (português) estabeleceram interessante debate com os estudantes presentes. Nada de escrita, senão jogos de opiniões mascadas...
Importante pensar que este era um texto para ser lido por todos em sala e que certas marcas de oralidade se faziam importantes para o jogo de inventar uma dialética do ler-criticar-manifestar. Ainda computamos os resultados.
Para qualquer sentido que tenha tomado esta aula-inaugural, acreditamos que a lógica da provocação somada ao acúmulo de idéias instigantes, na perspectiva da emancipaçao do indivíduo para o que chamemos "sujeitos de direitos", já é válida como proposta de educação por causar o desconforto da resposta não-fácil.
"Degustar" será uma boa pedida para o ano que inauguramos. Por hora, mastiguemos.


Jogo de mastigação


É muito comum ouvir das pessoas: “política? Não gosto de política. Odeio política.” E quando dizem isso, querem expressar suas insatisfações com os representantes políticos, com os deputados e vereadores, presidentes e governadores, ministros e secretários, ou seja, quando alguém diz não querer ouvir sobre política, é o mesmo que dizer não querer ouvir falar de corrupção e maracutaia.

Podemos chamar isso de “cultura da apatia política”. Podemos escrever isso e, mesmo alguém que saiba ler, não entender nada. Como isso é possível? Simples. Com um mundo de tantas informações, tanta novidade pela tv e internet, nos jornais impressos, na novela, pouco temos de tempo para ficar refletindo, matutando mesmo, sobre algumas palavras e sobre o uso dessas palavras. Engolimos o que ouvimos ou lemos como quem almoça com pressa. Sem sentir muitos sabores. Sem mastigar muito. Engolimos a seco diariamente.

Quando usamos “cultura da apatia política”, de uma vez só queremos dizer que existe “um costume de gente desestimulada por lidar com jogo de poderes”. Mas de uma vez só, acredito, ficamos no mesmo embaraço. Podemos ao menos nesse texto dedicar algum tempo para mastigar as palavras, ao invés de apenas engoli-las. Avancemos nos pedaços.

Cultura é uma palavra muito usada. Seus usos vão desde falar de coisas artísticas a pessoas inteligentes: ontem fiz um programa cultural... - Ela tem tanta cultura!
E assim vamos ficando cada vez mais íntimos da palavra sem, no entanto, refletir sobre ela direito. Cultura, com sua raiz latina (o verbo colo), significa “cultivar a terra”. Ou seja, a idéia de trabalho está ligada à palavra cultura. Logo, tudo que o homem produz, seja no campo, seja na cidade, tudo que parte de sua ação de transformar coisas ao seu redor e que ele transforma em saber, isso é cultura. Daí a idéia de que uma pessoa inteligente ser uma pessoa culta, bem, isso cai por água abaixo. Por outro lado a questão da arte, cultura como algo do mundo da arte, isso também cai, porque um pedreiro é produtor de cultura, é um sabedor de cultura, mais uma engrenagem desse coletivo, das práticas humanas.
E sobre a frase acima? Sobre a cultura da apatia política? Nesse caso, cultura é tudo o que produzimos enquanto ação, enquanto costume de ação, de modo de agir. Sem negar outros usos do termo “cultura”, podemos considerar que aqui falamos de uma prática comum de um povo, de um grupo, de alguma coletividade. Ou seja, a apatia está sendo uma ação – ou uma não-ação? – constante de muitas pessoas quando têm de refletir sobre política.

Política, esta palavra, mais do que cultura, é muito mal utilizada. Por exemplo: todos fazemos política. Todos. E sempre – não há intervalos para esse tipo de prática. Política está relacionada a poder. E o poder ele é negociado diariamente, com todos ao nosso redor: é o pai que deseja manter o respeito e a autoridade sobre a filha, é a amiga que deseja ganhar mais confiança da outra amiga, é o policial que usa o poder da farda para violar os direitos alheios, é o namorado que conquista a namorada que por sua vez quer domá-lo para casar – e não ficar só de lero-lero. Política é o jogo dos relacionamentos humanos, mas também das instituições que o homem criou: o Estado, seus aparelhos de saúde, policiais, de educação.

Dá para imaginar um mundo de pessoas apáticas em relação à política? Não seria um mundo de mulheres e homens, com sorte seria um planeta de plantas.

Mas o desafio deste texto que nos inaugura o ano letivo é ainda outro: chamar para uma questão todos os envolvidos nesse processo, estudantes todos que somos, sobre o que seria “empoderamento a partir da educação”. Essa outra frase com jeito de palavrão merece o mesmo “mastigar” daquela primeira. Desta vez sem didatismos: cada um aqui será pesquisador (especulador) desta atividade. O que seria se “empoderar a partir da educação”?

Se há resposta para isso, antecipo que não há uma resposta certa. Existe o exercício de escrever e refletir sobre a questão. Fazer isso é evitar engolir facilidades para, enfim, descobrirmos os sabores das idéias.
(por Felipe Eugênio)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

2009

O ano de 2009 não começa agora, nesta postagem. Desde o início do ano estamos trabalhando. Desde o fim de 2008 estamos trabalhando. Podemos dizer que mais trabalho há neste período do que durante o ano letivo, o qual para nós começará em 2 de março.
No dia de hoje estamos na segunda prova de seleção para acesso às vagas no ensino médio e fundamental. Provas de matemática hoje, ontem de português. Para a semana ainda contaremos com entrevistas - momento de decisão sobre o perfil deste futuro estudante pejiano. A torcida é sempre para cincoentas perfis que coadunem com as potencialidades daqui. Nem sempre o ideal é alcançado. Suar por ele, no entanto, é o trabalho justo.
Uma das metas de 2009 para esse espaço virtual é manter os estudantes egressos em constante participação. Além da Simone Cândida, já partícipe do sítio, chamaremos ainda outros camaradas para rabiscarem aqui seus olhares sobre o mundo. Desta forma seremos um PEJA que não vive de certificações, outrossim, de desdobramentos da usina de conhecimento.
Oxalá consigamos deixar claras as marcas de um trabalho diferenciado. E que vê nesse processo - de estabelecer-se como uma outra via de educação - a importância de multiplicação: o Peja-Manguinhos já amadurece para também existir em territórios similares. Há um arsenal de táticas semiológicas - e de apreensão do sensível territorial - que acumulamos e constatamos úteis para guerras outras, dessas sem defuntos, choros ou velas. Ano bom é ano suado. Suemos!
f.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

resenha do filme "Pro Dia Nascer Feliz", por karine bastos

Esta página do PEJA-manguinhos não deve se ater a discussões ensimesmadas, outrossim, devemos é produzir escritos sobre tudo que for boa matéria. E se falamos de arte, de cinema mesmo - ou música, ou arquitetura, ou artes de desencontros - estamos seguindo um rumo aqui apontado anteriormente: produzindo reflexoes que se desdobrem por entre tantos leitores e autores. O texto da professora de português, Karine Bastos, trata do filme "Pro dia nascer Feliz". Por sinal é um excelente filme para se pensar educação. Mas o ato de resenhar um filme poderia passar sobre temas outros, claro. Fiquemos com o olhar da ex-estudante da UFRJ que é, desde alguma data, uma presença na coordenação das aulas de português.
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Pro dia nascer feliz. O documentário dirigido por João Jardim trata fundamentalmente do sistema de educação nacional. Traçado um caminho descritivo por algumas escolas brasileiras, não é tão surpreendente defrontar-se com as marcas das diferenças socioeconômicas: sejam as esboçadas pela estrutura física e pelo ensino, sejam as esboçadas pelo professor e pelo aluno. Mas impressionante, de fato, é notar, em traços relevantes, as formas de violência permanentes em cada segmento apresentado. Da criminalidade à violência gratuita, as respostas à Educação gritam de modo a desnudar o seu fracasso.
A trajetória do filme se inicia em Pernambuco, numa cidadezinha onde não há sequer uma escola. Os alunos, nesse caso, contam com um ônibus para levá-los a Manari, outra cidade, que fica a 30 quilômetros de distância. E, nessa realidade apresentada, surge a menina Valéria, de 16 anos, um exemplo marcante da exceção. Sua história é capaz de fascinar todo o público, pois – sob um olhar poético e esperançoso diante da vida – a menina mostra uma forma vigorosa de remar contra a maré das condições de sua escola. Ônibus que se quebra, professores que faltam, professores que não percebem sua sensibilidade e até duvidam de seus escritos. A maré é bastante alta.
Em seguida, no Rio de Janeiro, o foco se dirige para uma escola pública em Duque de Caxias. Na entrevista, os meninos afirmam roubar por ódio ou, simplesmente, por falta do que fazer. Dentre eles, um personagem se destaca por cambalear sua inteligência e sua esperteza entre o estudo e a criminalidade. Já os professores, reunidos para o conselho de classe, mostram sua preocupação com esse aluno, mas não sabem de que forma agir. Nos momentos em sala de aula, é possível notar que, apesar de ser um menino cativante, também desperta certa fúria nos professores. Nesse sentido, torna-se reveladora a total desestrutura do corpo docente e do discente, uma vez que possuem uma grande dificuldade em lidar entre si e criam um conjunto de sentimentos antagônicos no ambiente escolar.
Itaquaquecetuba, interior de São Paulo. A escola apresenta problemas que começam pelas faltas numerosas dos professores e pelo forte desinteresse dos alunos. Nesse quadro, atenta-se para personagens que merecem certo destaque. A menina Keila, por exemplo, narrando seus momentos de desânimo, assume seu desejo pela morte. Já outro menino manifesta, num discurso consciente, a vontade de ser padre e de estudar filosofia. Há ainda a professora – desses alunos – que promove, com dedicação, o projeto do fanzine e dá conta de uma atividade prazerosa e produtiva para todos. São momentos em que os alunos ganham voz e podem discutir, por conta de uma relação de cumplicidade, sobre assuntos que lhe afligem. No entanto, a mesma professora – apesar da pouca idade – sofre um grande desgaste em sala de aula e, por isso, justifica suas faltas.
Por fim, aborda-se a realidade de uma escola católica de elite na cidade de São Paulo. É evidente que, além de dispor de um espaço físico excelente, a escola também é marcada por sua rígida disciplina. No entanto, o filme deixa claro que a educação não se resume por esses fatores. A entrevista com os adolescentes denuncia casos de depressão, de crises existenciais e até de violência nesse ambiente escolar. A reação mais normal de quem assiste a essa parte do filme é a de indignação diante das angústias expostas pelas alunas. É habitual, nesse caso, considerar uma rebeldia sem causa da classe alta e se comover apenas com a dura realidade dos adolescentes de Manari, por exemplo.
Mas a principal proposta deste documentário não é somente relatar as fortes diferenças existentes entre as escolas – e seus ensinos – do país. O fundamental é demonstrar que o sistema educacional brasileiro é muito falho. E, dessa forma, é possível constatar que cada realidade registrada enfrenta problemas gerados por ela mesma.
O foco do filme é dado ao ensino de adolescentes. Esse fato isoladamente já apresenta condições bastante conflituosas, uma vez que a adolescência é uma fase caracterizada por alterações físicas, psíquicas e sociais. É o momento em que o indivíduo forma sua identidade, a partir de seus valores e de suas crenças. É quando ele – ao levantar questões relacionadas à sua origem, à sua identidade e ao seu futuro – não encontra com facilidade, evidentemente, as desejáveis respostas. Como se vê em “Pro dia nascer feliz”, o sistema educacional brasileiro, em vez de cumprir seu papel de articulador – e esclarecedor – entre o jovem e o meio social, provoca o inverso. O jovem brasileiro tem uma relação de relutância com a escola, pois tem uma idéia – ou, pelo menos, uma sensação – de que o ensino não o conduz, de forma alguma, ao seu papel de cidadão, assim como a de que esse ensino está muito distante do que realmente lhe atrai.
Outro fator que justifica o fracasso escolar é a ausência dos pais, não abordada na obra de Jardim. Daí se expande a crítica às diferentes abordagens para educação. Num ciclo vicioso, um adolescente carente de uma educação familiar é capaz de levar graves problemas para o ambiente escolar, assim como um sistema de educação com valores decadentes gera futuros problemas nas relações familiares. Essa ausência dos pais não é diagnosticada apenas nas regiões menos favorecidas economicamente, mas também nas áreas nobres de grandes cidades, por motivos distintos. O fato é que isso se soma às angústias acumuladas desses adolescentes.
Como resultado/percepção final, o que se pode ressaltar é a violência. Os jovens do Rio de Janeiro tendenciosos à criminalidade; a menina de São Paulo que narra com orgulho um assassinato cometido por ela; o desrespeito dos alunos, de todas as escolas apresentadas, com o professor; o desrespeito dos professores com os alunos. Ela está estampada a todo o momento. E, se não fosse a arte cinematográfica retratando-a, fatalmente, seriam imagens corriqueiras, que acostumam e amansam – contraditoriamente – os olhos de quem as nota. O professor, neste país, ainda acredita que possui apenas duas opções: aceitar a reação dos alunos ou fugir – através de inúmeras faltas – se a instituição lhe permitir. Os alunos “vivem a pressa de saber quem são”.
“Pro dia nascer feliz” cumpre o papel de reproduzir as realidades da Educação brasileira. Coloca, em foco, as diferenças regionais e de classe, as semelhanças, os extremos e as exceções. Cabe a todo telespectador reconhecer seu papel de cidadão e documentar na sociedade o foco que lhe convém: seja promovendo o diferente, o semelhante, o extremo ou a exceção.
KARINE OLIVEIRA BASTOS

Idéia de Educação em Geografia - por Diego Amaral

Diego Amaral é o professor de geografia mais jovem na equipe. Reparem bem o "na equipe", posto que o título de caçula não se aplica ao nosso querido "Barba", seu codinome - senão título. A sua entrada se deu no processo de seleção, em julho de 2008. Com o texto abaixo ele teve a oportunidade de mostrar-se para além da entrevista - esta, anterior ao seu escrivinhado.
A chegança de gente com gás e alguma pincelada de idéias abertas, mais do que coisa cara, é matéria a ser modelar como critério para aderir à equipe Peja-Manguinhos. Ei-lo!

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O mundo apresenta um quadro, que expressa o resultado da luta pela sobrevivência enfrentada pelos diversos povos para a constituição e a manutenção dos seus territórios. E hoje mais do que o território que está construído, delimitado e estabelecido, busca-se a cidadania, quer dizer, a garantia de direitos individuais e sociais. Isto é, a acessibilidade concreta ao direito a habitação, alimentação, saúde, educação, trabalho, segurança, bem-estar e mais do que isso, o direito de buscar a efetivação concreta destas leis no sentido de viver bem, construindo a sua história, e o seu espaço, com dignidade e com consciência clara de ser um sujeito social atuante, com lugar para as suas idéias e para satisfação de suas necessidades.

Neste sentido a Geografia, entendida como ciência social, que estuda o espaço construído pelo homem, a partir das relações que estes mantêm entre si e com a natureza, quer dizer, as questões da sociedade, com uma “visão espacial”, é por excelência uma disciplina formativa, capaz de instrumentalizar o aluno para que exerça de fato a sua cidadania.

A partir desta problemática busca-se a formação de um cidadão que reconheça o mundo em que vive, que se compreenda como indivíduo social capaz de construir a sua história, a sua sociedade, o seu espaço, e que consiga ter os mecanismos e os instrumentos para tanto.

Portanto, uma educação para a cidadania, desenvolvendo uma prática que seja aberta à possibilidade de questionar o que se faz, de incorporar de fato os interesses dos alunos, e de ser capaz de produzir a capacidade de pensar, agindo com criatividade e com autoria de seu pensamento, ou seja, o conteúdo das aulas de Geografia deve ser trabalhado de forma que o aluno construa sua cidadania, considerando o sujeito-estudante um ser histórico que traz consigo uma história, e um conhecimento adquirido na sua própria vivência, conhecendo a realidade, compreendendo os mecanismos que a sociedade utiliza, reconhecendo no território a sua história e as possibilidades de mudança.

O exercício da cidadania deve-se dar inclusive no interior da sala de aula. É necessário situar o conhecimento escolar como integrante de um universo maior do conhecimento e conseguir perceber em que medida ele expressa e veicula interesses de classe. Não se trata de apenas criticar, de desmontar este conhecimento escolar por ser também ideológico. Trata-se sim de dar conseqüência a uma critica histórica que se deve fazer, decorrendo dela uma ação social e política. E acima de tudo reconhecer que neste processo não há neutralidade.

O conteúdo de Geografia, por ser essencialmente social e ter a ver com as coisas concretas da vida, que estão acontecendo e tem a sua efetivação num espaço concreto, permite e encaminha o aluno a um aprendizado que faz parte da própria vida e ao confrontar várias situações entre si e com as condições concretas do seu próprio mundo próximo, ele vai construindo um conhecimento próprio e mais do que isto, a compreensão de regras e leis que regem este mundo atual, pode inclusive buscar o que as funda e compreendê-las como historicamente construídas.

Podemos concluir que o conhecimento não é o fim, a finalidade do processo de ensino-aprendizagem, mas o intermediador do diálogo entre os que aprendem. O significado do estudo não pode estar nas informações, nas verdades descritas, mas estas devem remeter à formulação de conceitos que o aluno deve construir.
Diego de Oliveira Amaral
barbauerjfebf@yahoo.com.br

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

A Virada - por Simone Cândida

A autora do texto é estudante do PEJA-Manguinhos no sentido atemporal. Mas o que seria isso? Hoje ela frequenta quase todas as aulas como ouvinte. Estudou lá, estuda cá, desconhecemos a qual tempo ela pertence, enfim. Pensando bem, posto que formada, reformulo aqui o dito: a autora do texto é uma estudante lato senso. Desconhece matrículas para cumprir suas sedes de reflexão. Uma autodidata modelar.
Simone Cândida terminou as disciplinas no primeiro semestre de 2008 e, seguindo conosco, aqui no PEJA-Manguinhos, inscreveu-se no Enem. Os resultados vêm pela sua própria pena, através do texto abaixo. Uma mulher revirada que revisita experiências como se novas.
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Durante muito tempo só soube ser mãe,esposa e dona de casa,mas faltava algo que foi interrompido por vários acontecimentos,a necessidade de conhecimento,não um conhecimento vivenciado exclusivamente no cotidiano,mas sim um com uma educação diferenciada.Foi quando resolvi matricular-me no PEJA.
Comecei a estudar no Ensino MÉDIO I em Fevereiro de 2007, mas em meados de março sofri um AVC, fiquei sem freqüentar as aulas por um mês, perdi muito conteúdo,mas não desisti,consegui pegar as matérias e fiz as provas, ao receber a nota de história, fiquei muito emocionada e entrei em crise de choro, por receber um DEZ, olha que receber um dez em história já é um feito, ainda mais nas condições em que me encontrava, sem raciocínio perfeito e tomando muita medicação.
Então percebi que empecilhos, somos nós que colocamos ou não em nossas vidas, decidi a não mais me ver e nem permitir que terceiros ditassem regras ou me falassem o que fazer e como fazer,pude ser “Dona da minha vida”.
Foram 3 semestres de muita realização pessoal,onde cada dia eu crescia como pessoa,desbravava horizontes que jamais pensei que pudesse alcançar,concluí o curso em julho de 2008.
Fui orientada pelos professores e pela coordenação a inscrever-me no Enem 2008, que ocorreu em Agosto de 2008. Porém, mesmo tendo concluído o curso, continuei como aluna ouvinte, freqüentando e assistindo todas as aulas.
O resumo, dessa que era apenas uma pacata dona de casa, foi a de ser uma futura Universitária, que obteve uma excelente média no ENEM, e ter ganhado uma bolsa na PUC. Agradeço profundamente todo o corpo docente do PEJA de Manguinhos por terem me possibilitado a oportunidade de realizar o meu sonho de ter um nível acadêmico e desejar que esse projeto continue realizando sonhos e mudando vidas.

Simone Cândida, formada no ensino médio ao final do primeiro semestre de 2008.