sábado, 17 de outubro de 2009

O teatro do PEJA-Manguinhos: temporada pela fiocruz - parte II


Eis mais uma matéria sobre o grupo teatral dos estudantes do PEJA-Manguinhos. A temporada que seguiu para dentro do campus da Fiocruz fez do Saltimbancos um espetáculo que ficou na ponta da língua dos seus atores - que outrora representavam via leitura dramatizada.

o link da matéria segue abaixo:

http://www.fiocruz.br/ccs/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=2603&sid=9



População e voluntários são atrações à parte no Fiocruz pra Você 2009

Paula Lourenço

Dançar, atuar, informar, conscientizar, aprender ou apenas se divertir. Objetivos diversos que foram concretizados no Fiocruz pra Você 2009, realizado neste sábado (20/6), durante a primeira etapa da Campanha de Vacinação conta a Poliomielite do Ministério da Saúde. O evento integrou 1.120 trabalhadores voluntários da Fundação ao público externo. Milhares de adultos e crianças estiveram no campus de Manguinhos para a vacinação, mas também para as 70 atividades gratuitas, realizadas das 8h às 17h. E foi justamente a população que forneceu um brilho especial ao evento, que, neste ano, chegou a sua 16ª edição superando as expectativas de imunizações: 3.481 doses aplicadas em crianças de até cinco anos, no campus de Manguinhos.

Entre as estrelas deste dia esteve o motorista Marcelo Costa da Silva, 36 anos, morador de Manguinhos. Ele, que é estudante do Programa de Educação de Jovens e Adultos da Fundação, virou ator na peça Os Saltimbancos. “Esta foi a primeira vez que me apresentei no Fiocruz pra Você. Achei maravilhoso encontrar tudo isso para nossa comunidade”, disse ele, num misto de voluntário e beneficiado pela iniciativa. Sua colega de palco e de turma, Jacinta Firmina de Jesus Neta, 35, compartilha da opinião do parceiro. Costureira e moradora de Manguinhos, ela é freqüentadora assídua do Fiocruz pra Você. “Venho para cá há quase 16 anos. No começo, trazia meus filhos para vacinar, hoje, eles já estão crescidos, com 13 e 7 anos, mas sempre venho com eles para cá, para serem acompanhados pelos serviços de saúde. E, agora, trouxemos a peça para o público”, esclareceu.

Outra mãe interessada nos serviços e aprendizados sobre saúde, sem abrir mão da diversão, foi Raquel Pereira Alves, 29. A auxiliar de escritório, que no momento está desempregada, trouxe, pelo terceiro ano consecutivo, seu filho Gustavo, 9. ­­­­­­­­“­Meu filho já está crescido, mas trago ele para cá para aprendermos informações sobre doenças, olhar as bactérias no microscópio. Eu mesma peguei informações sobre reumatismo, problema que eu tenho”, explicou Raquel. Além de se atualizar sobre a enfermidade, ela levou para casa uma muda de herva roxa, doada pela Fundação. “Vou levar para a minha tia. Ela adora plantas”, disse a moradora do bairro de Benfica.

A família Marvilla veio para o campus de Manguinhos com a mesma intenção de Raquel. Eles chegaram cedo ao um dos postos de vacinação do campus para garantir as gotinhas de Ryan, de um ano e um mês de idade, e aproveitar a festa. “Chegamos aqui às 9h. Depois, andamos tudo por aí e lanchamos. Adoramos o trenzinho e também de ver as pessoas explicando as pesquisas com os insetos”, narrou a dona de casa Adriana Marvilla Ferreira da Silva, 34, mãe de Ryan, que mora no Parque Carlos Chagas, em Varginha. “É a segunda vez que venho para cá. Neste ano, trouxe os meus pais e uma vizinha”, complementou Adriana, enquanto fazia um lanche com a mãe, a dona de casa Ilza Reis Marvilla, 59, e o pai, o aposentado Acy Marvilla, 59, moradores da Penha.

Foi para este público que trabalhou com muito entusiasmo a administradora Amanda Ferreira, 26. “Trabalho na Fiocruz há um mês, na área de Recursos Humanos da Dirac, e estou muito feliz de estar aqui. Eu não conhecia o Fiocruz pra Você e a gente observa que tudo funciona como se fôssemos uma grande família. As pessoas pensam que serviço público é algo burocrático, mas vemos que a Fiocruz é diferente, você tem um retorno muito gostoso da população, você se sente útil”, comentou.

Com mais tempo de “casa”, mas com igual alegria esteve a servidora pública Adriana Aparecida Teles, 33. “Faz 11 anos que participo do Fiocruz pra Você. Sou apaixonada por este trabalho. Já fiz de tudo ao longo desse período: entreguei lanche, orientei crianças perdidas, fiquei no espaço da ciência, além de ter trazido primos e filhos dos vizinhos para se vacinarem aqui. Acho esta iniciativa da Fiocruz fundamental para a comunidade do entorno da Instituição. Além das vacinas, o serviço social aqui desenvolvido fortalece o papel da Fundação, que é contribuir para a melhoria da saúde pública brasileira”, justificou, enquanto entregava panfletos do programa Farmácia Popular, do governo federal e coordenado pela Fiocruz em todo o Brasil.

A empolgação também tomou conta dos alunos da Escola Politécnica em Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz). Tanto que o grupo caminhou pelo campus oferecendo abraços e sorrisos. “Quer um abraço?”, perguntavam, interceptando quem passava pelo caminho. Entre os que estiveram na “turma do abraço”, Juliana Couto, 15; Jean Pereira, 18; Ângelo Ferreira, 16; e Brenda Lopes, 16.

Mas nem só trabalhadores e estudantes da Fiocruz se engajaram na iniciativa. Pessoas de outras instituições e das comunidades, interessadas no trabalho da Fundação, deram sua contribuição. “A experiência do Fiocruz pra Você foi muito rica para mim. Costumo fazer trabalho voluntário e, quando soube que ia haver o daqui me inscrevi. Na tenda, orientamos as pessoas a tirarem a segunda via da carteira de identidade, explicamos como buscar sua certidão de nascimento, fornecemos informações sobre certidão de casamento e de habilitação para casamento”, disse Willian da Silva Ninck Lopes, 24, estudante de direito e voluntário da Defensoria Pública do Rio de Janeiro, parceira do Fiocruz pra Você 2009.

O prazer de levar alegria para os outros e de se divertir contagiou o trio de dançarinos da terceira idade. “Viemos aqui para dançar para o público”, disse Palmira Cruz, 85, moradora de Benfica, acompanhada de seus amigos Maria Cruz, 73, e Antônio Menezes, 66. Os dançarinos se juntaram ao grupo que já dançava perto da tenda do Museu da Vida, embalados pelo ritmo da solidariedade do Fiocruz pra Você que, se depender da animação do público e do apoio de parceiros como o Banco do Brasil, será sucesso também em 2010.

Publicado em 20/06/2009.


Notícias

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Saltimbancos: teatro de Manguinhos na estrada e a língua portuguesa no bolso


Música de Francisco Buarque de Holanda, texto de Bardotti e Bacalov, direção de Karine Bastos - e também de Geraldo de Andrade e Marcelo Melo em outras temporadas -, com uma trupe dessa, que mais falta para um bom espetáculo?

Faltam os moradores de Manguinhos, estudantes de EJA, homens e mulheres adultos, chefes de família, trabalhadores e que, entre as 19h e 22h, dividindo o tempo com aulas de matemática e de geografia (e de biologia e de filosofia e etc), ensaiam um musical. Eram as aulas de português do ensino fundamental. Era para estarem exercitando a leitura e a escrita, não é mesmo? Pois foram muito além. Com a leitura dramatizada, segundo palavras dos professores de português, Karine e Marcelo: "o mais gratificante foi notar a desenvoltura de cada um com a linguagem, com a história, com o palco; notar os resgates que, de alguma forma, existiram. O sucesso foi tão grande que esta mesma turma foi convidada para fazer a mesma apresentação no evento Fiocruz pra você 2009, data da Campanha Nacional de Vacinação".

E é fato. Inicialmente como atividade final do semestre, sendo apresentado no Laboratórios do Livre Saber para uma platéia moradora de Manguinhos, a trupe teatral formada por estudantes do Fundamental, foi convidada por servidores da Fiocruz que haviam assistido suas duas apresentações (sim duas, pois teve bis para o último dia da semana de arte, cultura e tecnologia do PEJA). E de cá, do Auditório Elenice Saturnino, no Espaço Casa Viva, dentro de Manguinhos, foram Marcelo Costa, Greice, Jacinta, Rosângela, Marcele, Graça, Maria de Fátima, Elisângela, apresentar o musical para um público da cidade, no movimentado Fiocruz Pra Você. Evento público de atrações culturais e de atividades ligadas à educação & saúde, que a Fundação promove junto à campanha de vacinação. Nas dependências do Parque da Ciência, estudantes do PEJA-Manguinhos, todos já “veteranos” nessa montagem desde sua estréia em 2008, puseram o musical novamente em exibição pública, contagiando neste novo ambiente as várias crianças que passeavam pelo evento na tarde de sábado, em 20 de junho de 2009. Nesta montagem colaborou com a turma também Geraldo de Andrade. Na fotografia, ao lado da professora Karine, está Marcelo Melo, que em 2009 também enveredou pelas experiências de palco para no PEJA fazer do estudo da língua mais do que um prazer: outrossim, criação coletiva de alta qualidade!


Felipe Eugênio

O teatro do PEJA-Manguinhos: temporada pela fiocruz - parte I


Abaixo vai a matéria que saiu no site da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP), sobre a peça "A Saúde da Saúde", de Geraldo de Andrade (o Seu Geraldo), montada pela turma de estudantes do PEJA-Manguinhos.

E esse foi o início de uma temporada. O publico pediu e o povo do peja enveredou "na estrada". Tudo bem que o circuito não era extenso. Ficam valendo os aplausos, que provinham de mãos variadas.

o link:
http://www.ensp.fiocruz.br/portal-ensp/informe/materia/index.php?matid=18403&origem=4

55 anos ENSP

Informe Ensp

Público lota Tenda da Saúde para assistir último dia do Prata da Casa

ENSP, publicada em 28/09/2009

A Tenda da Saúde recebeu um grande público no último dia do Festival Prata da Casa, quinta-feira (24/09), para assistir a shows de música e teatro. O primeiro foi "Vem Me Ver", do médico homeopata Pedro Jonathas, do Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria da ENSP. Mesclando poesias, clássicos da MPB e músicas de sua autoria, Pedro Jonathas também falou da luta contra a fome e a desigualdade travada pelas personalidades que inspiraram a semana comemorativa dos 55 anos da ENSP. Em seguida, o público assistiu à apresentação de Irene Azevedo no show de MPB "V do Avesso".

Em seu show de voz e violão, Irene leu frases de Gandhi e Josué de Castro escritas nos cartazes decorativos da tenda e tocou músicas de artistas da música popular brasileira como Nando Reis e Paulinho Moska. Antes, o médico Pedro Jonathas falou sobre o processo de composição de suas canções, baseadas no trabalho e na vida desses homens, como "Coração África" dedicada a Nelson Mandela.

Além das apresentações musicais, também foi exibido na Tenda da Saúde o documentário "Filipe de 2006", produzido e dirigido por Margarida Hernandez. O filme apresenta a vida do garoto Filipe dentro do hospital enquanto espera por um transplante de coração e fala de seu otimismo e a esperança na luta pela vida.

Encerrando as atividades culturais da Tenda, o grupo de teatro A Gente da Favela, formado por alunos do Programa de Educação para Jovens e Adultos (Peja) da comunidade de Manguinhos, encenou a peça "Saúde da Saúde", escrita e dirigida por Geraldo de Andrade. Com humor e críticas ácidas, a peça debate as condições atuais da saúde brasileira e alerta para a necessidade de rever o conceito. Através do diálogo de oito atores que representavam profissionais da saúde e trabalhadores de outras áreas, o grupo falou do meio ambiente, segurança no trabalho e fez críticas à corrupção na política, que impede que mais recursos cheguem à saúde.

Fora da Tenda da Saúde, a Oficina Artesanal do Centro de Saúde Escola expôs produtos feitos pelos participantes da oficina, como panos de prato, de mesa e outros produtos. Além de funcionar como uma terapia, proporcionando a troca de saberes entre os participantes, a Oficina também é uma forma de promover a geração de renda dentro e fora da comunidade de Manguinhos.

A equipe de odontologia do Centro de Saúde Escola também expôs seu trabalho, orientou os presentes sobre as formas corretas de escovar os dentes com o "Bocão" - uma grande boca de madeira utilizada na demonstração. Fantasiadas de Bruxa Docilda e Fada dos Dentes, a equipe mostrou a encenação orientada ao público infantil sobre como cuidar dos dentes. No eterno embate entre o bem e o mal, a Bruxa Docilda incitava as crianças a comerem doces, e a Fada dos Dentes alertava-os para os problemas que a sua ingestão pode trazer.


Felipe Eugênio

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Seu Geraldo, um dramaturgo de Manguinhos



Há quem se recorde de Luiz Mendonça. O trabalho dele segue longevo. Como já dizia verso de João Nogueira, morre o homem fica a obra.

Seu Geraldo é um sujeito com muita presença de espírito. Dificilmente se admitiria obra de terceiros. Diria, como aliás, disse: "a arte mora na gente; e ela faz um monte de puchadinho pra caber mais gente na gente!" Geraldo Andrade, discípulo de Luiz Mendonça, considera que se cruzaram as relações de referência entre ele e o dramaturgo falecido. Se Seu Geraldo é a presença do teatro em Manguinhos, impulsionado pelo trabalho de Luiz Mendonça através da ENSP, o próprio Mendonça é memória resgatável graças à qualidade das peças de Seu Geraldo. Quadros que se fundem, passado e presente.

Assim, em setembro deste 2009, o PEJA-Manguinhos junto com o dramaturgo de Manguinhos, Geraldo de Andrade, estabeleceu a inclusão do teatro junto às turmas do ensino fundamental e médio. Com seu próprio texto, Geraldo de Andrade dirigiu junto com a professora do PEJA, Karine Bastos, o grupo de teatro com estudantes do PEJA, intitulado “A Gente da Favela”. A peça é "A Saúde da Saúde", que traz em seu conteúdo críticas ácidas à situação atual da Saúde e da sociedade brasileira - da gestão do SUS ao modelo clientelista da política representativa, passando pela exploração da mão de obra do trabalhador e, enfim, chamando à discussão as determinações sociais da Saúde, assim se deu uma apresentação na qual os atores amadores se divertiram. Nada mais artístico do que ser aquele que ama, amador.

Os ensaios aconteciam durante as aulas de Artes do PEJA-Manguinhos. A peça foi exibida no festival Prata da Casa, ocorrido na Ensp.

O que ficará deste grupo de teatro que emerge de um EJA? Disse dependerá de mais autores como Seu Geraldo colocarem no papel e no corpo mais e tantas mais expressões que não se calam em Manguinhos.


Felipe Eugênio

domingo, 19 de julho de 2009

Sonhos de cavalaria


O semestre que se despediu na semana passada, e que este espaço de comunicação pouco pautou, guarda muito em histórias de lutas e - quase como num conto de literatura apaziguadora - nisso conquistou um interessante final. Não exatamente feliz final; pois há limites até para literaturas apaziguadoras. Tivemos um final retumbante. Ecoa até agora o barulho com sons de cansaço e de desafio. Há isso, sons de desafio? - pois existem sim, e vêm em forma de aplausos, de vozes embargadas, de suspiros de missão cumprida. A Semana de Arte, Cultura e Tecnologia do Peja-Manguinhos apresentou uma realidade retumbante, diferente de um período difícil que até então fora 2009.

Nosso blog não deixara de ser alimentado por falta de assunto. O que se deu fora a precarização das relações de trabalho que atingiu em cheio a equipe. Problemas que atacaram os recursos do projeto financiado com recursos da ENSP: novo sistema de cadastro de convênios (do Governo Federal), atrasos quase inimagináveis na burocracia dentro da Fiocruz (idas e vindas do processo protocolar pelo qual há de passar todo projeto, mas com adendos de caricatura da "eficiência" do funcionalismo público), impasses na assinatura do convênio Peja-Manguinhos mediante o trabalho já realizado meses antes da assinatura final - que tanto demorara a vir. Enfim, ficamos sem recursos, o que significou desde abril até junho sem salários. Pouco problema? Quase tivemos uma equipe desfeita. Entre os tantas experiências pedagógicas ganhando robustez no cotidiano, tivemos que nos situarmos diante de uma situação absurda que se estendia semana a semana – e que só perigou explodir ao final do semestre: um cenário de contrastes: desestímulo material (porque a ideologia não prescinde ter de pagar o ônibus para ir ao trabalho) e empolgação com os resultados das disciplinas em estudo (os estudantes produzindo à luz dos parâmetros curriculares atividades sem, perdoem o trocadilho, parâmetro – isso diante dos preconceitos historicamente legados a quem more em favela, claro). Daí professores tomaram posicionamentos distintos sobre como reagir ao impasse, e então, o problema que era interinstitucional, entre Governo Federal, Redeccap e Fiocruz, veio a minar as relações internas. Uma briga de foices entre os famintos. Uma injusta querela, guerra de nervos, entre os profissionais que mantiveram os trabalhos em atividade até, enfim, a semana passada, na culminância mais do que bem sucedida dos Laboratórios do Livre-Saber. Desta vez, escrito com letras maiúsculas para ser provocação da provocação.

A imagem que ilustra esse pequeno texto é do Pablo Picasso. Os personagens retratados são épicos porque arquetipizam uma pá de comportamentos de hoje e de amanhã. Rocinante, Dom Quixote, Sancho Pança e seu burrico (de quem esqueci o nome), trazem à luz as mazelas que sofremos na perseguição dos sonhos. São errantes, são errados, são divertidos aos olhos do leitor pelas angústias que guardam. Provavelmente a tal da verossimilhança em seus cacoetes de alucinados cause efeito. Por outro lado a idéia do sonho impossível seja o que cause apetite. Um cardápio de associações possíveis.

Colocar esses problemas publicamente é um modo de considerar que nosso apetite esteve acima da fome. Desconsiderar a fome é um erro, porém.


Hoje, então com despensa abastecida, devemos entender melhor o nosso apetite: o lugar onde queremos chegar.
Matar a fome é resolver uma falta. Isso feito, precisamos de nutrição planejada para o “ir além”. O Peja-Manguinhos deste novo semestre se coloca como um programa de intervenção na comunidade porque é escola. Disputaremos o conceito de escola, desta vez com mais interlocutores, tais como a nova equipe da Escola Politécnica da Fiocruz, o Escritório Técnico Multidisciplinar da Fiocruz Mata-Atlântica, e com a própria Ensp (que segue parceira de idéias e ações).

Estamos todos (estudantes e professores-estudantes) com ânsia por degustações mais extensas. Não degustações novas. Estamos construindo um caminho que não carece especialmente de novidades, mas que exige um aprofundamento, uma sofisticação do que já existe. Nisso falamos de pesquisa e publicização dos dados. Nisso falamos de ampliar o diálogo sobre educação territorializada com outras instituições e com o movimento social local. Nisso falamos de provocar mais ainda o protagonismo entre nossos estudantes. Sempre na metodologia de falar muito nisso, sem esquecermos de estudar aquilo. O mundo é sabor para muitos paladares – tem em história quanto mais temos em necessidade de beber/produzir história. Enfim, Cidadania Ativa é o conceito que disputaremos até perder seu binômio. E só, somente só, cidadania ser.

Este "só", é tudo o que nos falta como compreensão do poder que nos é negado, que nos é ceifado, que - olha só - por vezes temos por empréstimo diante do status quo. “Nós” não somos o status quo – o que é definição ampla, mas basta.

Como Quixote de La Mancha, no Peja-Manguinhos buscaremos entender da anatomia dos moinhos o suficiente para, enfim, derrubar os gigantes.

Que venha 2009 / 2!




Felipe Eugênio


segunda-feira, 13 de julho de 2009

A inauguração de uma antiga novidade


A antiga semana cultural do PEJA-Manguinhos, evento que há três anos finaliza semestres letivos, na edição de 2009 ganha um formato mais ousado e, por conta disso, adquiriu novo nome: laboratórios do livre-saber (semana de arte, cultura e tecnologia do Peja-Manguinhos).

O texto abaixo busca justificar essa inovação em nomenclatura e no formato das práticas de apresentação. Após um longo período desde texto inaugural, após - e ao passo - de um semestre agitado com complicações internas, a equipe docente do PEJA-Manguinhos apresenta os resultados dos estudos cumpridos e das metas, discutidas desde o primeiro dia, como uma pauta que não se esmorece.

Por que “laboratórios do livre-saber”?

O laborar, labor, labore são palavras que carregam similaridades etimológicas à cultura, ao kultur, ao cultivo; ao trabalho de lidar com a terra. Ao trabalho como processo de transformação do mundo pelo homem.

No Peja-Manguinhos, ao largo de cada semestre letivo, há mais de três anos buscamos integrar os saberes das disciplinas escolares com estratégias que, apresentando a materialização da teoria, tenha como finalidade maior a exposição para a comunidade dos aspectos de inovação ou intervenção que o estudo cultivara neste ou naquele período semestral.

Antes chamávamos esse evento de Semana Cultural. Mas ainda lidávamos com apresentações de trabalhos no formato de seminário - ao mesmo tempo em que apresentávamos produtos de melhor acabamento para a recepção do público. E neste formato de atividades mais elaboradas, aí sim, nos valíamos das linguagens artísticas ou de apresentações com inovações intelectuais que fugiam da mera reprodução de saberes. Aperfeiçoando a cada semestre as semanas culturais – que continuarão sendo a avaliação final das turmas, mesmo com outro nome -, neste ano de 2009 optamos por acentuar mais a marca de nossa especificidade. Rompemos com os trabalhos com formatos de seminários e buscamos ficar inteiramente na exposição laboratorial dos estudos tidos em sala. A experimentação, hoje mais do que antes, torna-se para nós a base para uma escola em movimento.

Os saberes transados no espaço escolar, se não articulados com o conceito de liberdade (que a poeta Cecília Meireles bem versou sobre: "Liberdade, palavra que o sonho humano acalenta/Que não há quem explique,/Mas não há quem não entenda."), podem se perder num ocaso de objetivo.

O saber é patrimônio que tem uso para a subversão. O território de Manguinhos demanda de fugas e até de enfrentamentos sobre os “lugares comuns”. A subversão é medida para entendermos o que seja ação direta, o que seja cidadania, empoderamento, etc. A pecha criadora e de inovação desses saberes há de ser oriunda da permuta pedagógica, e isso sim, cotidianamente estimulado, experimentado, faz do PEJA-Manguinhos uma usina de conhecimentos. Uma escola que pretende discutir/disputar modelos de educação com o status quo.

Acreditamos em um ensino diferenciado, com propósitos e pretensões de formar cidadãos, que conheçam e exerçam seus direitos, formadores de opiniões, protagonistas político-sociais do território, partícipes isonômicos da cidade.

Diante de tal proposta, contamos agregar parceiros. Isso ficando claro que contamos com o debate, com o dissenso, com a parceria que não se limita ao aplauso, outrossim faz da tensão um caminho para crescimento. O Laboratório é abertos para todos que, visando a liberdade de idéias, contribua com argumentos para uma construção de civilidade.

Eis nossa Semana de arte, cultura e tecnologia – laboratórios do livre-saber. Assim mesmo, com letras minúsculas. Em primeiro porque não há uma propriedade que imponha, mas sim que, por ser aberta, está sempre disposta a ser disputada. E depois, porque cria a dúvida: é certo escrever assim, com minúsculas? Ou seja, provocação já na entrada.

Felipe Eugênio dos Santos Silva.

Coordenação pedagógica PEJA-Manguinhos

REDECCAP / FIOCRUZ

quarta-feira, 4 de março de 2009

Aula Inaugural 2009

Na última segunda-feira (2 de março) tivemos nossa aula inaugural. Após o cumprir do processo seletivo - antes do carnaval - e da feitura do quadro de horário das disciplinas, nos restava receber os novos e antigos estudantes do PEJA-Manguinhos de modo diferente e, ao mesmo tempo, confortável.
A proposta vingou do texto abaixo, onde duas turmas tiveram dinãmicas distintas: uma com todos os jovens participantes do Peja, outra com os formandos do ensino médio - além dos recém formados do fundamental que agora inauguram o médio na turma nova. Na turma dos novatos, encabecei a leitura coletiva , que resultou numa prática mais trabalhada com intervenções escritas no verso do papel - atacando assim a questão lá proposta. Com a turma de veteranos, as professoras Cassia Miranda (filosofia) e Karine Bastos (português) estabeleceram interessante debate com os estudantes presentes. Nada de escrita, senão jogos de opiniões mascadas...
Importante pensar que este era um texto para ser lido por todos em sala e que certas marcas de oralidade se faziam importantes para o jogo de inventar uma dialética do ler-criticar-manifestar. Ainda computamos os resultados.
Para qualquer sentido que tenha tomado esta aula-inaugural, acreditamos que a lógica da provocação somada ao acúmulo de idéias instigantes, na perspectiva da emancipaçao do indivíduo para o que chamemos "sujeitos de direitos", já é válida como proposta de educação por causar o desconforto da resposta não-fácil.
"Degustar" será uma boa pedida para o ano que inauguramos. Por hora, mastiguemos.


Jogo de mastigação


É muito comum ouvir das pessoas: “política? Não gosto de política. Odeio política.” E quando dizem isso, querem expressar suas insatisfações com os representantes políticos, com os deputados e vereadores, presidentes e governadores, ministros e secretários, ou seja, quando alguém diz não querer ouvir sobre política, é o mesmo que dizer não querer ouvir falar de corrupção e maracutaia.

Podemos chamar isso de “cultura da apatia política”. Podemos escrever isso e, mesmo alguém que saiba ler, não entender nada. Como isso é possível? Simples. Com um mundo de tantas informações, tanta novidade pela tv e internet, nos jornais impressos, na novela, pouco temos de tempo para ficar refletindo, matutando mesmo, sobre algumas palavras e sobre o uso dessas palavras. Engolimos o que ouvimos ou lemos como quem almoça com pressa. Sem sentir muitos sabores. Sem mastigar muito. Engolimos a seco diariamente.

Quando usamos “cultura da apatia política”, de uma vez só queremos dizer que existe “um costume de gente desestimulada por lidar com jogo de poderes”. Mas de uma vez só, acredito, ficamos no mesmo embaraço. Podemos ao menos nesse texto dedicar algum tempo para mastigar as palavras, ao invés de apenas engoli-las. Avancemos nos pedaços.

Cultura é uma palavra muito usada. Seus usos vão desde falar de coisas artísticas a pessoas inteligentes: ontem fiz um programa cultural... - Ela tem tanta cultura!
E assim vamos ficando cada vez mais íntimos da palavra sem, no entanto, refletir sobre ela direito. Cultura, com sua raiz latina (o verbo colo), significa “cultivar a terra”. Ou seja, a idéia de trabalho está ligada à palavra cultura. Logo, tudo que o homem produz, seja no campo, seja na cidade, tudo que parte de sua ação de transformar coisas ao seu redor e que ele transforma em saber, isso é cultura. Daí a idéia de que uma pessoa inteligente ser uma pessoa culta, bem, isso cai por água abaixo. Por outro lado a questão da arte, cultura como algo do mundo da arte, isso também cai, porque um pedreiro é produtor de cultura, é um sabedor de cultura, mais uma engrenagem desse coletivo, das práticas humanas.
E sobre a frase acima? Sobre a cultura da apatia política? Nesse caso, cultura é tudo o que produzimos enquanto ação, enquanto costume de ação, de modo de agir. Sem negar outros usos do termo “cultura”, podemos considerar que aqui falamos de uma prática comum de um povo, de um grupo, de alguma coletividade. Ou seja, a apatia está sendo uma ação – ou uma não-ação? – constante de muitas pessoas quando têm de refletir sobre política.

Política, esta palavra, mais do que cultura, é muito mal utilizada. Por exemplo: todos fazemos política. Todos. E sempre – não há intervalos para esse tipo de prática. Política está relacionada a poder. E o poder ele é negociado diariamente, com todos ao nosso redor: é o pai que deseja manter o respeito e a autoridade sobre a filha, é a amiga que deseja ganhar mais confiança da outra amiga, é o policial que usa o poder da farda para violar os direitos alheios, é o namorado que conquista a namorada que por sua vez quer domá-lo para casar – e não ficar só de lero-lero. Política é o jogo dos relacionamentos humanos, mas também das instituições que o homem criou: o Estado, seus aparelhos de saúde, policiais, de educação.

Dá para imaginar um mundo de pessoas apáticas em relação à política? Não seria um mundo de mulheres e homens, com sorte seria um planeta de plantas.

Mas o desafio deste texto que nos inaugura o ano letivo é ainda outro: chamar para uma questão todos os envolvidos nesse processo, estudantes todos que somos, sobre o que seria “empoderamento a partir da educação”. Essa outra frase com jeito de palavrão merece o mesmo “mastigar” daquela primeira. Desta vez sem didatismos: cada um aqui será pesquisador (especulador) desta atividade. O que seria se “empoderar a partir da educação”?

Se há resposta para isso, antecipo que não há uma resposta certa. Existe o exercício de escrever e refletir sobre a questão. Fazer isso é evitar engolir facilidades para, enfim, descobrirmos os sabores das idéias.
(por Felipe Eugênio)